Lacerda participa de Fórum “Um olhar para o futuro”

Na tarde desta segunda-feira (02) foi realizada a primeira sessão do Fórum “Um olhar para o Futuro”, em comemoração aos 85 anos da Rádio Bandeirantes. O tema do encontro foi a economia no país e o presidente do Cofecon, Antonio Corrêa de Lacerda, foi um dos convidados. Também participaram o ex-ministro da agricultura, Roberto Rodrigues; o presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Administração de Imóveis de São Paulo (Secovi-SP), Roberto Luna; e o superintendente de produtos de investimentos do Itaú, Rogério Calabria. A abertura foi feita pelo ex-Presidente da República Michel Temer.

Falsas dicotomias
Em sua participação, Lacerda argumentou que para evitar alguns dos erros ocorridos recentemente, o Brasil precisa superar falsos dilemas. Um deles seria a competição entre Estado e mercado. “Nos países desenvolvidos existe uma perfeita composição entre o setor público e o privado. No Brasil, caímos nesta esparrela de Estado ou mercado. Precisamos das duas coisas”, pontuou o presidente do Cofecon. “Outra falsa dicotomia é: ser um grande produtor agropecuário, mineral e petrolífero ou ter setores industriais e de serviços fortes. O Brasil tem condições de se desenvolver em todas estas áreas”.

Os erros de estratégia ocorridos nos últimos anos levaram o Brasil a um quadro de desindustrialização. “Precisamos colocar o País no caminho da economia verde e das novas tecnologias. Temos outros desafios, o quadro mudou, mas temos uma história de industrialização”, acrescentou Lacerda. “Precisamos de uma política que não se restrinja a uma determinada área da produção. A política econômica precisa induzir o crescimento, levando em conta não apenas os fundamentos das áreas fiscal e cambial, por exemplo, mas também as políticas de competitividade”.

Globalização
Durante o evento, o momento atual foi caracterizado como “um refluxo na globalização”. Lacerda contextualizou os anos 90, quando o movimento ganhou força, como um período em que a visão liberal defendia que não era preciso cuidar da produção, porque a geração de receitas poderia garantir, via importações, o abastecimento. “A realidade da pandemia e da guerra nos mostrou que essa interdependência gera insegurança no financiamento”, pontuou o presidente do Cofecon. “Muitas vezes, mesmo tendo os recursos financeiros e pagando adiantado, não conseguimos nos suprir de equipamentos básicos (para o combate à pandemia) como máscaras, gorros, respiradores e medicamentos, e agora (em virtude da guerra) acontece o mesmo com os fertilizantes e os microprocessadores na indústria automobilística e eletrônica”.

A visão de globalização, na opinião de Lacerda, é necessária, mas é preciso criar segurança em relação ao abastecimento de insumos e matérias-primas. “Havendo qualquer contratempo climático, natural, de guerra ou pandemia, o País fica muito exposto e se perde neste abastecimento”, explicou.

Renda per capita
Ao comentar indicadores de renda e emprego, a jornalista Juliana Rosa trouxe a informação de que o Brasil tem hoje uma renda per capita abaixo da média da América Latina: 15,4 mil dólares por ano. A este dado, Lacerda acrescentou que somos a economia mais desigual do mundo e temos problemas sérios no mercado de trabalho: são 28 milhões de pessoas que estão em situação de desemprego, desalento ou subocupação.

“Além de um problema social, é um problema econômico, porque estas pessoas estão excluídas do mercado de consumo”, pontuou o presidente do Cofecon. “A política de juros altos praticada nos últimos 20 anos acirra a desigualdade. Precisamos corrigir estas distorções. O crédito, em qualquer país, é usado como instrumento de desenvolvimento. No Brasil, as taxas são proibitivas. Todos os setores precisam de crédito, e as famílias também, mas em condições razoáveis”.

Lacerda ainda ressaltou que a taxa básica de juros subiu 10 pontos percentuais, e que no Brasil há uma grande distância entre a taxa básica e as taxas cobradas ao tomador final. “As grandes empresas podem se capitalizar via investidores, mas as pequenas e médias dependem do crédito para o capital de giro, e é preciso um crédito compatível com a estrutura dos negócios”.

Reforma tributária
O tema da reforma tributária também foi debatido. “Temos pelo menos três grandes problemas. Primeiro, nossa estrutura tributária é regressiva, está mais concentrada nos produtos do que na renda, o que faz com que os pobres paguem proporcionalmente mais impostos do que os ricos”, questionou. “Segundo, o sistema é complexo. Mesmo os que querem cumprir suas obrigações precisam de uma estrutura que custa muito. E daí surge o terceiro problema: há margem para elisão fiscal. Quem tem os melhores profissionais pode, dentro da lei, cumprir menos obrigações tributárias”.

Se há quase um consenso em relação ao diagnóstico, a solução nem sempre é fácil. “Politicamente, quando você diz quem vai pagar a conta, é uma questão de economia política”, comentou Lacerda. “Vários setores vão brigar para manter as coisas como estão ou para manter determinados privilégios”.

Combustíveis
Na atual conjuntura, provavelmente o preço dos combustíveis seja o problema que mais afeta a população como um todo. “Hoje prevalece na política de preços a paridade de preços internacional. Significa que a elevação que vem ocorrendo, mais a desvalorização do real frente ao dólar, acaba repassada ao consumidor”, apontou Lacerda. “Isso é muito bom para o investidor minoritário, mas para o consumidor é péssimo. Precisamos de uma política que atenda a todos os interessados: consumidor, investidor, empregados da Petrobras, sociedade e governo”.

Para o presidente do Cofecon, podemos aprender com as boas práticas internacionais de modo a amenizar a volatilidade de preços. “Toda a estrutura de preços da economia está atrelada aos combustíveis devido ao uso intenso do transporte rodoviário no Brasil”, analisou Lacerda. “Não vejo a privatização como uma solução, porque hoje não temos um ambiente regulatório adequado que dê conta da criação de um monopólio privado como este”.

Assista ao programa na íntegra no vídeo abaixo: