A nova tabela da Copa do Mundo

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copaSobre essa paixão despertada pelo futebol e sobre as possibilidades de vitória dos 32 países participantes da Copa da África do Sul muito já se falou e escreveu. Pouco ou nada teríamos a acrescentar a respeito desses dois aspectos. Nosso enfoque, portanto, desloca-se para um aspecto muito menos explorado que é o da relação entre o futebol e o desenvolvimento, relacionando a Copa do Mundo a indicadores socioeconômicos dos países participantes.

 

“O futebol não é uma questão de vida ou de
morte. É muito mais importante que isso...”
Bill Shankly

 

De 11 de junho a 11 de julho, bilhões de pessoas de todos os continentes do mundo estarão com suas atenções voltadas para a África do Sul, onde estará sendo realizada a 19ª edição daquele que é considerado o maior evento esportivo do planeta, a Copa do Mundo de Futebol.

Mesmo tratando-se de um evento que envolve uma única modalidade, o futebol, a verdade é que esta modalidade possui um número tão extraordinário de aficionados – praticantes, torcedores, curiosos etc. – que o interesse despertado supera inclusive o das Olimpíadas, evento que também é realizado de quatro em quatro anos e que reúne diversas modalidades esportivas (atletismo, ciclismo, hipismo, iatismo, natação, ginástica artística, basquete, vôlei, handebol, pólo-aquático, esgrima, boxe etc.).

Sobre essa paixão despertada pelo futebol e sobre as possibilidades de vitória dos 32 países participantes da Copa da África do Sul muito já se falou e escreveu. Pouco ou nada teríamos a acrescentar a respeito desses dois aspectos. Apenas a título de sugestão, recomendamos o livro de Franklin Foer, Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização (Jorge Zahar, 2005), para os que quiserem conhecer detalhes interessantes da paixão despertada pelo futebol.

Nosso enfoque, portanto, desloca-se para um aspecto muito menos explorado que é o da relação entre o futebol e o desenvolvimento, relacionando a Copa do Mundo a indicadores socioeconômicos dos países participantes.

Como é do conhecimento geral, a responsabilidade de sediar um evento de tamanha magnitude envolve enorme complexidade e as exigências tanto da FIFA (Fédération Internationale de Football Association, responsável pela Copa do Mundo), como do COI (Comitê Olímpico Internacional, responsável pelos Jogos Olímpicos), tornam cada vez mais difícil a sua realização por países não desenvolvidos.

Tais exigências englobam não apenas instalações e equipamentos esportivos sofisticadíssimos, mas também uma rede hoteleira capaz de hospedar milhares de turistas e inúmeros jornalistas que se deslocam de todo o mundo para acompanhar as competições, sem contar os custos envolvidos nos investimentos em infraestrutura e logística, com aeroportos, rodovias, metrôs, estacionamentos, segurança etc.

Nesse sentido, e caso a atual tendência permaneça a mesma – e não há nada que indique que venha a mudar, dada a busca incessante pela excelência – será cada vez mais difícil para países não desenvolvidos assumirem a responsabilidade de sediar eventos de tão grande porte. Assim, vale a pena prestar um pouco de atenção ao fato de que três dos próximos quatro maiores eventos esportivos mundiais serão realizados em países não desenvolvidos, a Copa de 2010, na África do Sul, a Copa de 2014, no Brasil, e os Jogos Olímpicos de 2016, também no Brasil (Rio de Janeiro), ficando como exceção os Jogos Olímpicos de 2012 que serão disputados em Londres, na Inglaterra.

Nosso artigo começa com uma rápida comparação entre Brasil e África do Sul e se encerra com uma série de considerações sobre a Copa da África do Sul com base em indicadores socioeconômicos dos países participantes.

Brasil e África do Sul: algumas analogias e diferenças

Brasil e África do Sul são países que apresentam o amarelo e o verde em suas camisas oficiais da seleção de futebol. São nações com diversas características em comum. É sobre algumas dessas características dos dois países – e de seus povos – que discorremos a seguir, procurando dar ênfase à importância do atual momento de transição vivido pelos dois países. Se conseguirem de forma definitiva se livrar dos fantasmas do passado recente, os dois países poderão olhar para o futuro com perspectivas bastante favoráveis.

Grande extensão territorial

Embora o Brasil, com seus 8.514.876 km2, seja muito maior do que a África do Sul, este não pode deixar de ser considerado um país de grande extensão territorial. Com área de 1.221.037 km2, a África do Sul está dividida em nove províncias e, a exemplo do Brasil, possui acentuadas disparidades regionais, quer em termos de condições climáticas, quer em termos de condições econômicas e sociais.

Influência continental

Os dois países, além da grande extensão territorial, possuem elevado grau de influência econômica em seus respectivos continentes. De acordo com os dados do Banco Mundial, Brasil e África do Sul são os países com maior Produto Interno Bruto (PIB) em seus respectivos continentes. Em 2009, o PIB do Brasil foi de US$ 1,6 trilhão, o 8º do mundo, enquanto o da África do Sul foi de US$ 276,7 bilhões, o 32º do planeta.

Miscigenação cultural

Pelos mais diferentes motivos, Brasil e África do Sul são países que abrigam em seus territórios um verdadeiro mosaico humano.

Ambos os países receberam imigrantes de todas as partes do mundo e esses imigrantes, integrando-se às populações locais, deram origem a uma incrível miscigenação étnica, religiosa e cultural. O Bispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984, utilizou a expressão “rainbow people” para definir a mistura de raças que compõem a população da África do Sul.

Chama a atenção, dentro desse aspecto da miscigenação, o fato de serem falados, com certa regularidade, nada menos do que 11 idiomas na África do Sul. O inglês e o afrikaner são praticamente do conhecimento geral. Além deles, outros nove idiomas ou dialetos dos diversos grupos étnicos locais são também conhecidos e utilizados por parcela considerável da população.

A exemplo do que se verifica com os brasileiros, também os sul-africanos se notabilizam pelo calor humano de seu povo. Por essa razão, recomendamos aos brasileiros que irão à África do Sul para torcer por nossa seleção que guardem bem a seguinte saudação: “Dis lekker om hier te wees” (“É muito bom estar aqui”, em afrikaner).

Contrastes acentuados

Não é difícil observar a existência de acentuadas desigualdades regionais e sociais na África do Sul. A má distribuição de renda pode ser notada em praticamente todo o país e evidencia-se através das mais variadas formas. Bairros elegantes, com mansões belíssimas, estão situados a distâncias não muito grandes de outros onde a pobreza predomina. Além disso, o país também enfrenta o problema do déficit habitacional, uma vez que nem todos conseguem ter acesso à própria residência, o que tem provocado nos últimos tempos – em especial nas grandes cidades – o aparecimento cada vez maior de favelas (townships), nas quais as condições de vida não diferem muito das observadas em diferentes partes de nosso próprio país.

A favela mais conhecida da África do Sul é Soweto. Como na Rocinha, no Rio de Janeiro, o fluxo de turistas vem aumentando nas últimas décadas. Os passeios pelas ruas de Soweto revelam a pobreza e os fatos históricos da luta contra a segregação racial.

Paralelamente aos problemas na área habitacional, a África do Sul enfrenta também – provavelmente numa escala menor do que o Brasil – dificuldades no que se refere à saúde, à educação, à violência e ao desemprego, que não para de crescer.

Democracias recentes

Brasil e África do Sul só recentemente adotaram o regime democrático. Consequentemente, os povos dos dois países estão ainda numa fase de aprendizado, dando os passos iniciais do exercício permanente que caracteriza a vida democrática. Tendo vivido por longo período sob regimes autoritários, as populações de ambos os países dão mostras, vez por outra, de que ainda têm alguma desconfiança quanto à solidez do regime democrático ora vigente.

Será que é pra valer? Esta dúvida parece estar presente ainda na cabeça de muita gente. Neste caso, provavelmente mais lá do que aqui, o que é compreensível, visto que a transição política em direção à democracia é bem mais recente na África do Sul (1994) do que no Brasil (1985). Por essa razão, não é de estranhar que ainda se faça certa confusão entre igualdade e liberdade como atributos da democracia, principalmente se levarmos em conta que nos dois países continuam existindo acentuadas disparidades regionais e sociais.

Momentos de transição

Os dois países vivem hoje um momento de transição: ambos olham para frente com otimismo; e ambos procuram se livrar de um passado extremamente difícil (Quadro 1).

 

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Talvez não seja possível para nós, brasileiros, ter uma avaliação precisa dos efeitos que a política oficial de segregação racial – apartheid – acarretou para a África do Sul. É possível identificá-los nos mais variados aspectos. No plano interno, o apartheid representava uma influência terrível nas relações sociais, na ordem econômica, na organização política, na cultura e em quase tudo que se possa imaginar. No plano das relações internacionais, praticamente a mesma coisa: a África do Sul enfrentou problemas seríssimos nas relações políticas, diplomáticas, comerciais e até esportivas, já que seus atletas ou seleções não eram admitidos nas grandes competições como as Olimpíadas, ou nos campeonatos mundiais de diversas modalidades.

Aliás, o mundo teve recentemente uma ótima oportunidade de aferir o que estamos afirmando. O filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood, com Morgan Freeman e Matt Damon nos papeis principais, oferece em diversas cenas a chance para constatar a complexidade da transição pós apartheid.

Da mesma forma, é praticamente impossível para os sul-africanos entenderem o que é viver – e sobreviver – num país que teve, de janeiro de 1980 a junho de 1995, uma inflação acumulada de 8.071.420.072.698%. É isso mesmo!!! Nesse intervalo, a inflação acumulada do Brasil atingiu, em termos percentuais, a casa dos trilhões.

Essa prolongada convivência com taxas elevadas de inflação teve efeitos sobre a nossa sociedade que vão muito além dos aspectos eminentemente econômicos. Como muito bem observou o Prof. Eduardo Giannetti da Fonseca em brilhante trabalho de pesquisa sobre a relação entre ética e inflação:

A convivência com a inflação é uma escola de oportunismo, imediatismo e corrupção. A ausência de moeda estável encurta os horizontes do processo decisório, torna os ganhos e perdas aleatórios, acirra os conflitos pseudodistributivos, premia o aproveitador, desestimula a atividade produtiva, promove o individualismo selvagem, inviabiliza o cálculo econômico racional e torna os orçamentos do setor público peças de ficção contábil. (O Estado de São Paulo, 14 de julho de 1992, p. 2)

Tal quadro – verdadeira fotografia do Brasil do final dos anos 80 e início dos 90 – trouxe como consequências imediatas, a proliferação da corrupção, o declínio da moralidade fiscal no setor privado e a malversação (dolosa ou culposa) de recursos públicos.

A igualdade racial para a África do Sul e a estabilização econômica para o Brasil são, portanto, condições essenciais para que esses países, livres dos fantasmas do passado, possam deslanchar daqui para frente, recuperando o atraso decorrente do apartheid e da inflação crônica e elevada. Aliás, de acordo com o IMD, o respeitado instituto suíço que publica anualmente o relatório do estudo que mede a competitividade de 58 países, incluindo o Brasil e a África do Sul, ambos encontram-se muito próximos no ranking mundial de competitividade, alternando pouco suas posições ao longo dos últimos dois anos (Quadro 2).

quadro2

 

Numa perspectiva histórica, a igualdade racial para os sul-africanos e a estabilização econômica para os brasileiros são experiências relativamente recentes. E, a exemplo do que foi afirmado com relação à democracia, ainda há muito chão pela frente para que se possa afirmar, com absoluta convicção, que são realidades definitivas, sem risco de retrocesso. Essa convicção, só o tempo poderá garantir.

A nova tabela da Copa do Mundo

Os 32 países participantes da XIX Copa do Mundo FIFA iniciarão em 11 de junho de 2010, na mais rica e mais populosa cidade sul-africana, uma disputa mundial nos estádios de futebol. As economias e populações com suas principais características também entrarão em campo, onde o crescimento econômico é medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) e o desenvolvimento humano é mensurado pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

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Fonte: PNUD, UNESCO e Machado & Galvão Junior.Nota: SD significa sem dados em 2007 ou em 2006.

A crise econômica mundial ainda estará presente nas torcidas, que lotarão os dez moderníssimos estádios de futebol da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul. A grande maioria dos torcedores assistirá pela televisão e pela internet o esporte mais popular do planeta. São 32 países, dos cinco continentes do mundo: África (6 países), América (8 países), Ásia (3 países), Europa (13 países) e Oceania (2 países).

Os 32 países foram divididos em 8 grupos (A, B, C, D, E, F, G e H) de quatro países. Por ordem alfabética na língua portuguesa, os candidatos ao título de campeão da Copa do Mundo de 2010 são: África do Sul, Alemanha, Argentina, Argélia, Austrália, Brasil, Camarões, Chile, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Costa do Marfim, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, França, Gana, Grécia, Holanda, Honduras, Inglaterra, Itália, Japão, Nigéria, Nova Zelândia, México, Paraguai, Portugal, Sérvia, Suíça e Uruguai.

No presente artigo os trinta e dois países são analisados e comparados com base em dois indicadores econômicos (PIB e PIB per capita), três indicadores sociais (esperança de vida ao nascer, taxa de alfabetização de adultos e gastos públicos em educação), um indicador demográfico (população) e dois índices (IDH e Índice de Gini).

O Grupo A é composto pela África do Sul, México, Uruguai e França. O Grupo A tem um PIB total de US$ 4,067 trilhões PPC (paridade do poder de compra), que ajusta os valores absolutos do PIB de acordo com o custo de vida em cada país. Tem uma população total de 223,7 milhões de habitantes e, logo, um PIB per capita de US$ 18.181 PPC.

O Grupo B é formado pela Argentina, Nigéria, Coreia do Sul e Grécia. O Grupo B tem um PIB total de US$ 2,335 trilhões PPC. O Grupo B tem a segunda maior população da Copa do Mundo, com uma população total de 246,3 milhões de habitantes, e logo, um PIB per capita de US$ 9.482 PPC.

Inglaterra, Estados Unidos, Argélia e Eslovênia são do Grupo C. É o grupo mais rico da Copa, com PIB total de US$ 16,839 trilhões PPC em 2007. O Grupo C tem o maior contingente populacional da Copa, com 405,5 milhões de pessoas em 2007. O Grupo C é também o que possui o maior PIB per capita da Copa do Mundo, com uma renda per capita de US$ 41.527 PPC em 2007.

O Grupo D é formado por Alemanha, Austrália, Sérvia e Gana. O PIB total do Grupo D é de US$ 3,670 trilhões PPC. A população total do Grupo D é de 135,9 milhões de habitantes. Logo, o PIB per capita é de US$ 27.012 PPC.

O Grupo E é composto pela Holanda, Dinamarca, Japão e Camarões. O Grupo E é o segundo mais rico da Copa, com um PIB total de US$ 5,167 trilhões PPC. O Grupo E é também a segunda maior renda per capita da Copa, com US$ 30,761 PPC. A população total do Grupo E é de 168,0 milhões de pessoas.

Itália, Paraguai, Nova Zelândia e Eslováquia são do Grupo F. É o de menor contingente populacional da Copa do Mundo, com apenas 75,0 milhões de habitantes. O Grupo F tem US$ 2,053 trilhões no PIB total e US$ 27.377 PPC no PIB per capita.

O Grupo G é composto pelo Brasil, Coreia do Norte, Costa do Marfim e Portugal. O Grupo G tem a terceira maior população da Copa, com 244,5 milhões de pessoas. O Grupo G tem PIB total de US$ 2,107 trilhões PPC e PIB per capita de US$ 8.618 PPC, o menor PIB per capita da Copa.

O Grupo H é formado por Espanha, Suíça, Honduras e Chile. Acredite, o Grupo H é o mais pobre da Copa do Mundo, com apenas US$ 1,980 trilhão PPC em 2007. O Grupo H é o segundo menos populoso da Copa, com 75,4 milhões de habitantes. O Grupo H tem quinta maior renda per capita da Copa, com US$ 26.269 PPC.

Os dados de 2007 foram coletados no Relatório de Desenvolvimento Humano 2009, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Analisando os dados recentes do PNUD, observamos claramente a divisão dos 32 países participantes da Copa do Mundo de 2010 em quatro grupos de desenvolvimento humano: i) 16 países de desenvolvimento humano muito elevado; ii) 7 países de desenvolvimento humano elevado; iii) 7 países de desenvolvimento humano médio; e iv) 1 país de desenvolvimento baixo. Existe apenas um país sem dados de desenvolvimento humano.

Os 16 países de desenvolvimento humano muito elevado (com IDH entre 0,900 e 1) são: Austrália (0,970), Holanda (0,964), França (0,961), Suíça (0,960), Japão (0,960), Estados Unidos (0,956), Espanha (0,955), Dinamarca (0,955), Itália (0,951), Nova Zelândia (0,950), Inglaterra (0,947), Alemanha (0,947), Grécia (0,942), Coreia do Sul (0,937), Eslovênia (0,929) e Portugal (0,909). Se o critério principal da economia global fosse o IDH, com certeza absoluta, o campeão da Copa do Mundo seria a Austrália com o IDH de 0,970 em 2007, segundo o PNUD. Já Holanda seria a vice-campeã mundial com o IDH de 0,964, repetindo os dois vice-campeonatos nas Copas do Mundo de 1974 e 1978.

Os sete países de desenvolvimento humano elevado (com IDH entre 0,800 e 0,899) são: Eslováquia (0,880), Chile (0,878), Argentina (0,866), Uruguai (0,865), México (0,854), Sérvia (0,826) e Brasil (0,813). Os sete países de desenvolvimento humano médio (com IDH de 0,500 até 0,799) são: Paraguai (0,761), Argélia (0,754), Honduras (0,732), África do Sul (0,683), Gana (0,526), Camarões (0,523) e Nigéria (0,511).

O único país de desenvolvimento humano baixo (com IDH entre 0 e 0,499) da Copa é um país africano – Costa do Marfim, com IDH de 0,484. Os marfinenses jogarão de camisa laranja contra a seleção canarinho no dia 20 de junho de 2010, no segundo jogo dos penta-campeões mundiais. A Costa do Marfim é a melhor seleção africana e de pior IDH da Copa. E o Brasil é a melhor seleção sul-americana e encontra-se na 23ª posição no ranking do IDH da Copa.

Infelizmente, o único país sem dados de desenvolvimento humano é a Coreia do Norte. Por que a Coreia do Norte não tem todos os dados na nova tabela da Copa do Mundo? Porque a Coreia do Norte é um país comunista, de economia planejada e extremamente fechada. O governo ditatorial de Kim Jong Il, em nome do proletariado, tem um caríssimo e perigosíssimo programa nuclear. A comunista Coreia do Norte, que volta a disputar uma Copa do Mundo após 44 anos, enfrenta sérios problemas de alimentação da sua população desde 1948. A Guerra Fria já acabou, mas os testes nucleares ainda continuam. Recentemente, a Coreia do Norte lançou um torpedo que atingiu um navio da marinha sul-coreana, matando 46 marinheiros e dando início a uma tremenda tensão mundial, com a possibilidade de uma nova guerra entre as Coreias, na fronteira mais militarizada do mundo.

O primeiro jogo do Brasil, na primeira fase do Grupo G, será contra a Coreia do Norte. A Coreia do Norte (122.762 km) é menor do que o estado do Ceará (148.825 km) e mais populosa (atualmente com 23,9 milhões de habitantes) do que o estado de Minas Gerais (hoje com 19,8 milhões de habitantes). Será um jogo histórico. Será muito corrido, difícil e faltoso.

O Índice de Gini situa-se entre 0 e 100. Um valor de 0 representa igualdade absoluta e de 100 desigualdade absoluta. Entre os 32 países participantes da Copa do Mundo de 2010, o melhor Índice de Gini é da Dinamarca com 24,7, refletindo os altos gastos públicos em educação (7,9% do PIB dinamarquês). Enquanto o pior Índice de Gini é da África do Sul com 57,8, refletindo sua taxa de alfabetização de adultos (88,0%).

O jogo de abertura da Copa do Mundo de 2010, na cidade de Johanesburgo, na primeira fase, será entre o país mais desigual na Copa, a África do Sul com Índice de Gini de 57,8 versus o México com Índice de Gini de 48,1 (sexto mais desigual). As duas seleções representam nações que, desde sua independência política, lutam para melhorar a qualidade de vida de seus povos.

A nação africana é um país emergente, mundialmente conhecido pelas suas belezas naturais como a Cordilheira do Karoo e as belas praias, pelas suas riquezas minerais como ouro e diamante e pelas suas reservas de animais selvagens. A África do Sul é o país mais rico do continente africano. “Estima-se que quase 4% do PIB provém dos gastos de 10 milhões de turistas que visitam o país por ano” (O Estado de São Paulo, 11 de maio de 2010, p. H2).

Mas, a República da África do Sul tem sérios problemas sociais e econômicos. Entre eles, podemos destacar a epidemia de AIDS (de acordo com a OMS – Organização Mundial de Saúde, é o país com o maior número de portadores do vírus: um em cada cinco sul-africano é portador do HIV), o alto índice de pobreza (de acordo com o Banco Mundial, 40% da população vive com menos de US$ 2 por dia), os altos índices de criminalidade (homicídios, roubos, furtos, estupros e sequestros) e a péssima distribuição de renda. Desde 1994 não existe o apartheid, que separava os brancos (minoria) e os negros (maioria), e que se iniciou em 1948, com a chegada ao poder do Partido Nacional. O principal líder sul-africano para o fim do apartheid foi Nelson Mandela, Prêmio Nobel da Paz em 1993. A nação arco-íris tem um governo multirracial e será o primeiro país africano a sediar uma Copa do Mundo. São nove cidades-sede: Bloemfontein, Cidade do Cabo, Durban, Johanesburgo, Nelspruit, Polokwane, Port Elizabeth, Pretória e Rustenburgo.

Já o México é o terceiro mais rico da América do Norte e o segundo mais rico da América Latina. O México é um país emergente com desenvolvimento humano elevado e já sediou duas vezes a Copa do Mundo, em 1970 (ano em que o Brasil foi tricampeão mundial) e em 1986 (ano em que o Brasil implantou o primeiro dos diversos planos econômicos seguidos para derrubar a inflação – o Plano Cruzado). O México também tem sérios problemas sociais e econômicos, tais como o alto índice de desemprego e de pobreza, o elevado contingente de emigrantes para o rico vizinho, os Estados Unidos, a epidemia do vírus H1N1 (de acordo com a OMS é o país com maior número de mortos) e o elevado índice de violência oriundo das ações do narcotráfico e do crime organizado. Segundo reportagem especial intitulada México em Guerra, “O México chora os seus mortos – são 22.700 executados a bala ou na lâmina do machado desde que a guerra ao narcotráfico foi declarada, em 2007, e mergulhou o país em um banho de sangue”. (O Estado de São Paulo, 23 de maio de 2010, p. H2).

Desde 1994 vigora o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), e o México continua com elevado volume de exportações dos seus produtos para os Estados Unidos e o Canadá. O México possui belíssimas praias como Acapulco, Cancún, Puerto Vallarta, Cozumel e Manzanillo, vistosas ruínas das milenares histórias dos maias e dos aztecas, a alegria dos mariachis caracterizados com trajes típicos tocando canções populares, e uma comida bem picante. Em 2010, o México será sede da COP-16 (Conferência do Clima), onde os líderes de 120 países debaterão as ações concretas no combate ao aquecimento global. Vamos torcer para que essa conferência produza resultados mais concretos do que a última, realizada na Dinamarca.

O jogo mais rico da primeira fase será entre os Estados Unidos e a Inglaterra, na cidade de Rustenburgo. Na disputa entre uma ex-colônia contra a metrópole, a língua oficial é o inglês. Sete países dos 32 participantes da Copa têm a língua de William Shakespeare como língua oficial: Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Gana e Nigéria.

Já a língua espanhola é utilizada por sete países dos 32 participantes. A língua de Miguel de Cervantes é falada por Espanha, México, Uruguai, Argentina, Paraguai, Honduras e Chile.

Já a língua francesa, do filósofo Jean-Paul Sartre, é falada por três países participantes, França, Costa do Marfim e Camarões.

Dois países falam oficialmente o alemão, Alemanha e Suíça. Dois países falam oficialmente o coreano, Coreia do Sul e Coreia do Norte. As duas Coreias disputarão, pela primeira vez, uma mesma Copa do Mundo. Existem vários países cujo idioma oficial é exclusivo. São os casos de Dinamarca (dinamarquês), Argélia (árabe), Eslováquia (eslovaco), Japão (japonês), Holanda (holandês), Sérvia (sérvio), Grécia (grego), Eslovênia (esloveno) e Itália (italiano).

Para nós brasileiros, o jogo mais importante no dia 25 de junho de 2010, será entre o Brasil e Portugal, na cidade de Durban. Novamente, teremos, frente a frente, uma ex-colônia e a antiga metrópole. A classificação para as oitavas de final poderá ser decidida nesta histórica partida, embora o Brasil esteja sendo indicado favorito pela maior parte dos analistas, tanto nacionais quanto estrangeiros. Favoritismo à parte, vamos torcer para que não se repita o ocorrido em 1966, quando a seleção portuguesa nos venceu por 3 a 1 num estádio em que, como agora, a maioria de torcedores era de língua inglesa.

Outro jogo bastante interessante na primeira fase será no Grupo H, entre Honduras e Espanha, na cidade de Johanesburgo. Mais uma vez estarão medindo forças uma metrópole e uma ex-colônia. Único país da América Central a se classificar para a Copa, Honduras é o mais pobre entre os 32 participantes, com apenas US$ 27,0 bilhões PPC. Nesse dia, enfrentará um país europeu e rico com o PIB total de US$ 1,416 trilhão PPC, embora, atualmente, a situação econômica da Espanha seja motivo de grandes preocupações.

Entre os 32 países que disputam a Copa do Mundo de 2010, os Estados Unidos, com 308,7 milhões de habitantes, é o país mais populoso. Enquanto a nação menos populosa é a Eslovênia, com apenas dois milhões de habitantes. Um jogo muito importante no Grupo F será entre a Itália com 59,3 milhões de pessoas e a Nova Zelândia com apenas 4,2 milhões de pessoas.

Também interessante pelo contraste apontar na nova tabela da Copa do Mundo. A maior esperança de vida ao nascer, com 82,7 anos, é do Japão; enquanto, a Nigéria, tem a pior expectativa de vida ao nascer, com apenas 47,7 anos, segundo dados de 2007 do PNUD.

Outro flagrante contraste na primeira fase será no Grupo D, no jogo entre Austrália e Gana. Um país rico, com esperança de vida ao nascer de 81,4 anos, versus um país pobre, com expectativa de vida ao nascer de 56,5 anos, ou seja, um australiano vive 24,9 anos a mais do que um ganense. Pela nova tabela da Copa do Mundo, a Austrália se classificaria tranquilamente para as oitavas de final. No entanto, os analistas dão o favoritismo à seleção africana, que é o segundo maior produtor mundial de cacau e um dos maiores exportadores mundiais de ouro, diamante, manganês e bauxita.

Entre os 32 países da Copa do Mundo, os Estados Unidos tem o maior PIB per capita com US$ 45.592 PPC, enquanto Gana tem a menor renda per capita, com apenas US$ 1.334 PPC.

O Grupo E também terá um jogo entre seleções de países com acentuadas diferenças socioeconômicas, Holanda versus Camarões. A primeira seleção é de um país europeu, rico, com desenvolvimento muito elevado e com o PIB per capita de US$ 38.694 PPC. Já a segunda seleção é um país africano, pobre, com desenvolvimento humano médio e com o PIB per capita de apenas US$ 2.128 PPC.

Pelo critério da riqueza, na nova tabela da Copa do Mundo os campeões são os Estados Unidos, o vice-campeão, o Japão, e o terceiro lugar, a Alemanha. Vale salientar que vários países ricos como Canadá, Bélgica e Suécia como também vários países emergentes como China, Índia e Rússia foram eliminados nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010. Destaque-se a ausência da China, atualmente, a terceira economia do mundo, e com projeções para ocupar o primeiro lugar antes de 2050.

Nós, brasileiros, continuamos tendo pela frente um enorme desafio. Precisamos investir milhões de reais nos próximos anos para oferecer uma educação de qualidade às nossas crianças e jovens, porque, em termos de resultados, os nossos indicadores são extremamente preocupantes. Se em termos quantitativos, verificou-se uma melhora acentuada nos últimos dezesseis anos, já que 97% das crianças brasileiras têm acesso ao ensino básico, em termos qualitativos a situação é bem diferente, como atestam as péssimas colocações de nossos estudantes nos testes comparativos internacionais envolvendo questões de ciências e matemática.

A torcida verde e amarela quer transformar o Brasil num país rico e de desenvolvimento humano muito elevado. O Brasil é um país membro do BRIC (iniciais em inglês de Brasil, Rússia, Índia e China) e será a quinta economia do mundo em 2030 pela consultoria PricewaterhouseCoopers. Mas para se transformar num país de desenvolvimento muito elevado antes de 2050, o maior desafio reside na oferta de uma educação de qualidade.

Não resta muita dúvida nos dias de hoje sobre a força da educação como fator de mudança. É consenso mundial que sem investimentos em educação um país não promove o desenvolvimento. Parafraseando (e adaptando) o grande escritor brasileiro Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e mulheres, livros e computadores”. O Brasil é o BRIC da vez, conquistando o direito de ser sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016. Se com o Plano Real, em 1994, conquistamos a estabilidade econômica, precisamos nos esforçar para produzir um Plano Nacional de Educação de Qualidade, a fim de que conquistemos a estabilidade social. Somando-se a estabilidade econômica com a estabilidade social, teremos plenas condições para dar início a um ciclo sustentado de crescimento econômico e de desenvolvimento humano.

A Argélia é o único país árabe a participar da Copa do Mundo. A exemplo de muitos outros países árabes, os indicadores sociais da Argélia ainda se acham muito distantes dos observados em países de desenvolvimento muito elevado. E também em muitos deles a educação se constitui num dos maiores desafios. Por essa razão, consideramos oportuno destacar a declaração da rainha da Jordânia – que não participará da Copa do Mundo de 2010. Num evento realizado em dezembro de 2009 na sede da FIFA, em Zurique, na Suíça, a rainha Rania Al Abdullah declarou: “Acredito profundamente que a educação deve ser a nossa prioridade número um. Ela pode realmente nos ajudar a mudar muitas coisas que causam dor no mundo, e pode nos dar mais estabilidade. Dar às crianças a chance de uma educação nos dá muito mais esperança para o futuro. É por isso que acredito muito sinceramente, do fundo do meu coração, que a educação deveria ser a tarefa que colocamos mais ênfase. Temos que acreditar no poder enorme que esta causa tem”.

Infelizmente, em nosso país estamos enfrentando sérios problemas nas salas de aula e fora delas. A grande maioria dos nossos alunos tem enorme dificuldade com a própria língua pátria e, obviamente, são pouquíssimos os que falam dois ou três idiomas fluentemente. Muitos dos nossos professores recebem salários baixos. Parcela considerável de alunos e professores não possui computadores nem notebooks. Mas, apesar de tudo isso continuou liderando as apostas como o grande favorito para conquistar a Copa do Mundo e levantar a taça feita em ouro 18 quilates, com 36,8 cm de altura e pesando 6,175 kg no dia 11 de julho de 2010. E, junto com ela, o prêmio inédito de US$ 35 milhões!

Para concluir, alguma curiosidade a respeito do nosso país, eterno candidato a campeão mundial de futebol:

• O Brasil concentra 12% de toda água doce do planeta Terra. Mas é o campeão mundial no desperdício de água: de cada 100 litros captados pelas companhias estaduais e municipais de água e esgoto do País, somente 40% chegam às torneiras dos consumidores brasileiros.
• O Brasil é um dos maiores exportadores de aviões, açúcar, café, carne bovina, carne de frango, suco de laranja e soja do mundo, tendo, portanto, potencial econômico muito grande.
• O Brasil é um país de belezas naturais reconhecidas por todos os que têm o privilégio de conhecê-las. O povo é alegre. O samba, o frevo, o forró, o axé e outros ritmos regionais contagiam os 190 milhões de torcedores. O otimismo e a confiança contaminam os brasileiros em frente à televisão.

Concluímos o artigo alertando para o fato de que ter um PIB alto não significa qualidade de vida do povo. O Brasil está repleto de problemas sociais como a violência urbana, a acentuada desigualdade, uma educação que ainda deixa muito a desejar e um número cada vez maior de cidades invadidas pelos viciados e traficantes de drogas, sobretudo do crack.

Os indicadores e índices apresentados na nova tabela da Copa do Mundo são demonstrações claras de que o Brasil depende de maciços investimentos em educação de qualidade para conseguir aliar a eficiência econômica à justiça social e, assim, ascender cada vez mais no ranking da economia global.

Enfim, o Brasil é a grande potência mundial do futebol. E é também reconhecido como uma grande potência emergente. Precisamos fazer com que nossos futuros craques peguem nos livros e nos computadores com a mesma vontade e o mesmo gosto com que chutam uma bola de futebol.


Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências bibliográficas

FOER, Franklin. Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

GIANNETTI, Eduardo. Ética e inflação. O Estado de S. Paulo, 14 de julho de 1992, p. 2.

MACHADO, Luiz Alberto. A dança dos números. São Paulo: Instituto Liberal, Série Idéias Liberais, Ano 5, Nº 87, 1998.

Referências webgráficas

MACHADO, Luiz Alberto. Entendendo a economia – Desenvolvimento X Crescimento econômico. Disponível em www.portalcafebrasil.com.br/iscas-antigas.

Referências cinematográficas

Título: Invictus
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge , Patrick Mofokeng , Matt Stern
Roteiro: Anthony Peckham, baseado em livro de John Carlin
Produção: Clint Eastwood, Robert Lorenz, Lori McCreary e Mace Neufeld
Música: Kyle Eastwood e Michael Stevens
Ano de produção: 2009
Gênero: Drama
Duração: 134 min

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A exemplo do artigo sobre os 92 anos da Revolução Russa, este artigo também foi escrito com a valiosa colaboração do economista paraibano Paulo Galvão Jr. Formado pela UFPB em 1999, ele é especialista em Gestão de RH pela FATEC Internacional e é chefe da Divisão de Pesquisa e Tecnologia da Informação da Secretaria de Turismo da Prefeitura Municipal de João Pessoa.

Escrito por Luiz Machado e Paulo Galvão Jr (*)