Milton Friedman e a Escola de Chicago II: Uma voz discordante
Por Luiz Alberto Machado*   
05 de December de 2006

livro_keynesPublicada em 1936, com o mundo vivendo ainda as agruras da Grande Depressão, A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de John M. Keynes, logo se transformou na obra mais respeitada entre os economistas, reverenciada como a nova - e adequada - forma de explicar a realidade econômica em curso. As idéias de Keynes tornaram-se predominantes no mundo acadêmico, e, no mundo real, proliferaram, entre os países desenvolvidos, políticas econômicas de inspiração keynesiana.

Alguns poucos economistas de destaque da época, entre os quais, Joseph A. Schumpeter, ousaram chamar a atenção para o fato de que a Teoria geral não era tão geral quanto se supunha, mas sim uma política adequada para um momento específico vivido por determinadas economias - economias desenvolvidas passando por um momento de acentuada recessão.

Além de Schumpeter, Hayek e Friedman se notabilizaram pela manutenção da defesa das idéias liberais, sem se impressionar com o sucesso - para eles temporário - das teses intervencionistas de Keynes.

Friedman desafiou todas as teorias dominantes a respeito das causas da Grande Depressão, afirmando que foi o excesso e não a falta de intervenção governamental a responsável pela maior crise até então vivida pelo sistema capitalista.

A Grande Depressão nos Estados Unidos, longe de ser um sinal da instabilidade inerente do sistema de empresa privada, constitui testemunho de quanto mal pode ser feito por erros de um pequeno grupo de homens - quando dispõem de poderes vastos sobre o sistema monetário de um país.

Em sua crítica generalizada ao intervencionismo governamental, a representada pelo Federal Reserve System (que, no caso dos Estados Unidos corresponde ao Banco Central) foi seu alvo principal:

"É possível que estes erros [cometidos pelo Federal Reserve System no período da Grande Depressão] possam ser desculpados na base do conhecimento disponível naquela ocasião - embora eu ache que não. Mas, este não é realmente o ponto. Qualquer sistema que dê tanto poder a um grupo de homens cujos erros - compreensíveis ou não - podem ter efeitos tão severos e amplos é um mau sistema. É um mau sistema para os que acreditam na liberdade justamente porque dá a poucos homens um poder tão grande sem que seja exercido nenhum controle efetivo pelo corpo político - este é o argumento-chave político contra um banco central "independente". Mas é um mau sistema, mesmo para os que põem a segurança acima da liberdade. Erros, compreensíveis ou não, não podem ser evitados em sistemas que dispersam a responsabilidade, mas dão poderes amplos a um pequeno grupo de homens e, portanto, tornam ações políticas importantes altamente dependentes de acidentes de personalidade. É este o argumento-chave técnico contra a existência de um banco central "independente". Parafraseando Clemenceau, dinheiro é coisa importante demais pra ser deixado aos bancos centrais."

MiltonFriedmanJpetrieEduO nome de Milton Friedman está fortemente vinculado ao da Universidade de Chicago, instituição em que cursou o mestrado em Economia, concluído em 1933, e à qual retornou em 1946 para lá permanecer por longo tempo. Além da forte influência inicial recebida de Frank Knight, vale destacar a convivência com destacados expoentes do pensamento liberal, tais como George Stigler e Gary Becker, ambos também agraciados com o Prêmio Nobel de Economia. Graças á presença marcante de Friedman nos debates econômicos, sempre defendendo os princípios do liberalismo clássico e as teses monetaristas, surgiu a expressão Escola de Chicago, umbilicalmente ligada a essas idéias.

Ardoroso defensor do equilíbrio monetário e fiscal, Friedman foi o mais contundente opositor das políticas econômicas de inspiração keynesiana que davam grande ênfase à política fiscal, como pode se ver pelo trecho que se segue:

Antes de abandonar o assunto da política fiscal, gostaria de discutir o ponto de vista, hoje em dia tão difundido, de que um aumento nas despesas governamentais está necessariamente relacionado com a expansão, e uma diminuição com a retração. Essa opinião, que está no cerne da crença de que a política fiscal Poe servir como um balanceiro, já foi adotada como correta por quase todos os homens de negócios, por economistas e também pelos leigos. Entretanto não pode ser considerada verdadeira em termos de considerações lógicas tão-somente, não foi ainda documentada por evidência, e é de fato inconsistente com a evidência empírica relevante que conheço.

Esta crença tem origem numa análise cruamente keynesiana [...] e é extremamente sedutora. Sua sedução, porém, é espúria e tem origem no fato de se negligenciarem outros efeitos relevantes da mudança em questão. Quando tais fatos são tomados em consideração, o resultado final é muito mais dúbio; poderá representar nenhuma alteração na renda como tal, quando então as despesas privadas apresentarão redução de $ 100, correspondente ao aumento de $ 100 nas despesas do governo - até o total especificado. E mesmo que a renda aumente, os preços poderão aumentar também, de modo que a renda real aumentará menos, ou não aumentará de todo.

Se a ferrenha defesa dos princípios liberais fez com que Friedman (assim como Hayek) amargasse um certo ostracismo nas décadas de 50, 60 e 70, o refortalecimento das políticas de cunho liberal diante do esgotamento das políticas de inspiração keynesiana a partir das experiências de Reagan e Thatcher nos anos 80, devolveu-lhe grande parte do prestígio, tanto no meio acadêmico, como no mundo real. O trecho a seguir, reproduzido do livro Macroeconomia moderna: Keynes e a economia contemporânea, é bastante significativo, uma vez que seus organizadores (e autores do trecho em destaque) são admiradores confessos das idéias de Keynes e de seus seguidores mais próximos, e não adeptos do liberalismo conservador praticado por Friedman e todos aqueles que crêem na economia de mercado, na livre iniciativa e no genuíno sistema de preços:

A década de 60 registra acentuado debate no campo teórico entre as teses monetaristas e as fiscalistas, defendidas pelos keynesianos. O principal expoente dos primeiros é Milton Friedman, que acaba levando vantagem na arena política graças à aceleração da inflação verificada ao final da década, combinada com a redução drástica do ritmo de crescimento das economias avançadas no início dos anos 70, dando origem ao fenômeno da estagflação, identificada como sendo o alto preço a ser pago pela bonança passageira dos anos de administração keynesiana.

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Referências e indicações webgráficas

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Este texto foi publicado originalmente em http://www.lucianopires.com.br. A publicação deste artigo foi autorizada pelo autor para o site do COFECON.
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*Economista, formado pela Universidade Mackenzie em 1977. É Vice-Diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado - FAAP, na qual é Professor Titular das disciplinas de História do Pensamento Econômico e História Econômica Geral.