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Por Luiz Alberto Machado (*)   
08 de March de 2010

“Os brasileiros encarnam melhor do que ninguém o espírito
que norteou a criação do projeto Caminho de Abraão, por
se tratar de um povo hospitaleiro, alegre e comunicativo.”
William Ury

 


Há dois ou três anos, fui convidado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira para uma reunião-almoço que tinha como principal atração uma palestra do professor William Ury, do Departamento de Mediação de Conflitos da Universidade de Harvard, sobre um projeto ainda embrionário chamado “Caminho de Abraão”.

Saí de lá bem impressionado com o que havia visto e ouvido e imaginei quão interessante seria participar de um projeto como aquele.

Agora, na semana do carnaval, tive a chance de ver essa ideia transformada em realidade, ao integrar uma missão acadêmica constituída por alunos e professores da FAAP, num trajeto parcial do referido projeto, preparado especialmente para o grupo, que teve como coordenador o jornalista William Waack, também professor de Política Internacional no curso de Relações Internacionais.

Foi um verdadeiro curso ao vivo, não apenas de política internacional, mas também da cultura, sociologia, antropologia e economia da região, uma vez que o roteiro concentrou-se em localidades do trajeto percorrido há 4.000 anos por Abraão e que dão uma boa noção do conflito envolvendo israelenses e palestinos. 

Iniciativa “O Caminho de Abraão”

O objetivo do projeto “O Caminho de Abraão” é apoiar a abertura de uma extensa rota de turismo cultural e histórico que visa refazer a jornada de Abraão (Ibrahim) pelo Oriente Médio há cerca de 4.000 anos. Esse resgate é uma homenagem às culturas judaica, cristã e muçulmana, que têm Abraão como seu patriarca comum.

O Caminho de Abraão é, sobretudo, uma plataforma para o desenvolvimento do turismo sustentável e um catalisador para o desenvolvimento pacífico e para a prosperidade econômica regional. Enquanto destino turístico, o Caminho tem o potencial de promover, também, o encontro entre pessoas e o diálogo entre culturas diversas, o desenvolvimento comunitário, a formação de lideranças jovens, a preservação do patrimônio histórico e do meio ambiente e uma imagem positiva da região na mídia, destacando a hospitalidade de seu povo.

Com 1.200 quilômetros (700 milhas) ao todo, o Caminho vai ligar paisagens deslumbrantes, sítios históricos e locais sagrados do Oriente Médio em um único percurso de rara beleza e incomparável interesse. A rota proposta tem início nas ruínas de Harran, local onde, se acredita, Abraão ouviu pela primeira vez o chamado de Deus. O Caminho se estende por todo o Oriente Médio e inclui cidades históricas como Alepo, Damasco, Jericó, Nablus, Belém e Jerusalém, contemplando ainda regiões de grande riqueza natural e cultural como as colinas do Líbano, a região de Ajloun da Jordânia e o deserto de Grajev, em Israel. No trajeto, encontram-se alguns dos locais mais sagrados do mundo. O ponto alto é a cidade de Hebron/Al Khalil, local do túmulo de Abraão. O Caminho será futuramente estendido para englobar as idas e vindas de Abraão rumo ao Egito, Iraque e, para os muçulmanos, Meca na Arábia Saudita.

O Caminho de Abraão é um projeto em andamento. O trabalho de mapeamento está em execução e um guia de viagem está sendo elaborado.

A viagem teve a duração de oito dias, iniciando pela Jordânia e continuando por localidades de Israel e Palestina, num verdadeiro quebra-cabeça, já que muitas vezes eu me via em dúvida sobre qual o Estado responsável pela administração da área em que eu me encontrava, haja vista que o grupo passou por incontáveis check points (barreiras de verificação).

O depoimento da Profª. Sonia Helena dos Santos é bastante ilustrativo:

A expectativa era muito grande. Imagine! Viajar para a Palestina, que aventura!

Já na chegada, especialmente na fronteira da Jordânia com a Palestina, controlada pelo Estado de Israel, o contato com a realidade começou a mostrar o que nos esperava. Daí em diante, a angústia e o sentimento de impotência foram aumentando. O que vi foi um país devastado em todos os aspectos. Pessoas que perderam seu bem maior: a liberdade, com muito pouca possibilidade de planejar o próprio futuro. Uma invasão arbitrária, como se alguém, do nada, entrasse  na sua casa e se instalasse sem conversa, sem justificativa, enfim, sem permissão.  Famílias cercadas por outras famílias, vivendo num permanente clima de tensão, que, em outro contexto, poderiam compartilhar os locais de trabalho, os supermercados, as escolas, e as áreas de lazer. Ao contrário, o lado forte controla e domina o lado fraco, de uma forma desumana e humilhante. Garotos agindo de forma truculenta, contra homens, mulheres e crianças sem a menor chance de defesa. Acredito que na maioria das vezes esses garotos não têm a exata medida dos seus atos. Tudo isso orientado e estimulado por um grande conflito religioso, que, a rigor, deveria ser o fio condutor para superar as diferenças.

Não foi uma viagem de contemplação, como as que geralmente costumamos fazer, onde o belo e o novo quase sempre se impõem. Foram momentos de tensão, medo, quase pavor, revolta, mas, ao mesmo tempo, a oportunidade para uma grande reflexão sobre valores e prioridades. Apesar de tudo e de todos, aquelas pessoas não desistiram da vida. Ficou evidente o esforço daquela sociedade na busca de soluções, de forma que possam recuperar o seu bem maior - a liberdade.

Nada melhor para comprovar a veracidade da observação referente ao clima de tensão relatado pela Profª Sonia do que o fato de que três dias depois de deixarmos a cidade de Hebron, na qual inclusive os integrantes da missão dormiram nas casas de famílias locais, teve início um conflito generalizado, que, segundo especialistas, pode ser o estopim de uma nova intifada[1]. Milhares de palestinos protestaram contra o anúncio de que Israel quer incluir dois locais sagrados na Cisjordânia como parte do patrimônio nacional israelense. Um deles é a Tumba de Raquel na entrada da cidade de Belém, a sete quilômetros de Jerusalém. Venerada pelos judeus como o túmulo da matriarca Raquel, ela é guardada por soldados israelenses. O outro é a Tumba dos Patriarcas, em Hebron, ao sul de Jerusalém, considerada sagrada para judeus e muçulmanos.

Na perspectiva econômica, a viagem permitiu constatar como é o processo de dominação progressiva de um Estado por outro, levado a cabo através de um conjunto de ações estratégicas que vão minando a resistência do lado dominado, quer por meio do fechamento das fronteiras geográficas, quer pelo estabelecimento de barreiras comerciais, quer pelo impedimento de acesso a recursos fundamentais para a sobrevivência.

Como professor, no entanto, a possibilidade de conviver mais intensamente com alunos de RI significou uma extraordinária oportunidade de aprendizado e uma evidência renovada da capacidade da juventude.

Aprendendo como protagonistas

Há algum tempo, o colunista Clóvis Rossi escreveu em sua coluna de “A Folha de S. Paulo” um artigo intitulado “A impunidade da ignorância” em que fazia referência a outro artigo, do escritor espanhol Rafael Argullol publicado por “El País”, relatando que alguns dos melhores professores espanhóis estão se aposentando “precipitadamente” por dois principais motivos: a progressiva asfixia burocrática da vida universitária e o desinteresse intelectual dos estudantes.

A semelhança com a realidade brasileira foi tamanha que o referido artigo se alastrou pela internet de forma impressionante, em especial entre a comunidade acadêmica.

Não vou me referir aqui ao primeiro dos dois problemas apontados, embora reconheça na sua existência um fator desmotivador de muitos colegas.

Quanto ao segundo fator, porém, faço questão de alertar para o fato de que o desinteresse pode ser decorrente – e o é muitas vezes – de metodologias arcaicas, que insistem em tratar os alunos como elementos passivos do processo de aprendizagem.

Do alto de sua “douta” sabedoria, muitos professores insistem em manter um estilo pedagógico em que só eles têm o direito de falar, despejando volume de informação às vezes excessivo para o período de que dispõem, esperando do aluno que permaneça imóvel e em silêncio ouvindo o conteúdo que – para esses professores – constitui-se no que de mais importante existe no mundo.

Certamente, no afã de acumularem seu estoque de conhecimento específico, não tiveram a oportunidade de conhecer um dito atribuído ao velho Confúcio: “Eu ouço; eu esqueço; eu vejo, eu lembro; eu faço, eu aprendo”.

Tendo a oportunidade de acompanhar a participação de muitos estudantes em situações em que lhes é dada a chance de assumir a postura de protagonistas, sou testemunha do excepcional papel que eles são capazes de desempenhar, com um comprometimento e uma determinação que têm me deixado orgulhoso e altamente recompensado, na medida em que fui um dos idealizadores de pelo menos dois desses instrumentos de aprendizagem na FAAP: as simulações de organismos internacionais, e as missões acadêmicas, das quais o “Caminho de Abraão” foi a quinta experiência.

Como protagonistas, em vez de desinteresse, os estudantes encontram espaço para mostrar sua inigualável energia, e com perguntas oportunas e observações inteligentes, conseguem ser verdadeiros mestres, levantando novas questões e forçando a reflexão daqueles que, sem saber, encontram-se fechados na redoma de um saber cristalizado e, não raras vezes, distante da realidade.

 

[1] Intifada é um termo que pode ser traduzido como "revolta". É frequentemente empregado para designar uma insurreição contra um regime opressor ou um inimigo estrangeiro, mas tem sido especialmente utilizado para designar dois fortes movimentos da população civil palestina contra a presença israelense nos territórios ocupados e em certas áreas teoricamente devolvidas à Autoridade Nacional Palestina (Faixa de Gaza e Cisjordânia).

 

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas

BONDER, Nilton. Tirando os sapatos: o caminho de Abraão, um caminho para o outro. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

JUBEH, Nazmi al (Ed.) Hebrón: Arquitectura y magia de una ciudad histórica. Palestina: Hebron Reahabilitation Committee, 2009.

Referências e indicações webgráficas

ISRAEL inclui locais santos da Cisjordânia ao patrimônio. Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,israel-inclui-locais-santos-da-cisjordania-ao-patrimonio,514200,0.htm.

ISRAEL X PALESTINOS: locais sagrados acirram clima. Disponível em http://www.jornalfloripa.com.br/mundo/ver_info_jornalfloripa.asp?NewsID=2323.

WIKIPEDIA. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Intifada.
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Este texto foi publicado originalmente em http://www.lucianopires.com.br.
A publicação deste artigo no site do COFECON foi autorizada pelo autor.

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(*) Economista, formado pela Universidade Mackenzie em 1977. É Vice-Diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado - FAAP, na qual é Professor Titular das disciplinas de História do Pensamento Econômico e História Econômica Geral.

 
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